o dia seguinte

Não sei se sou eu que não o deixo ir para longe ou se é ele que não me deixa ir a lado algum. O que é certo é que estamos os dois no mesmo sítio há demasiado tempo. De vez em quando, quando acordo, pergunto-me se já passou, se já se perdeu ou se pelo menos foi atenuado pelo tempo - nunca uma coisa que passa fome deveria ser tão grande. Já devia ter definhado ou até morrido, mas pelo contrário tornou-se maior que eu. Uma espécie de missão em que eu não sei se prefiro viver ou morrer sem ela. Porque cansa e quase sempre dói mais do que a ligeireza consegue esconder. Não é nada mas chega-se a si próprio, não se vê mas está em todo lado. O dia seguinte é sempre demasiado doloroso. Tentar abafar algo mais forte que eu com a leviandade do dia, carrega em si uma ladainha surda constante que geme e roga por ti. Tocar-te, ainda que seja ao de leve, é uma facada directa ao coração, que não mata, mas também não deixa viver. É viver no limbo - uma espécie de vida à margem, do que se pode agarrar com as mãos que temem em afagar-te e que ao mesmo tempo não o conseguem evitar.

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