É no momento em que uma pessoa está mais alienada da vida e focada nas inutilidades do quotiadino que eles aparecem de relâmpago e por norma, deixam marcas. É um aperto asfixiante no estômago e um sorriso parvo na cara. Um misto de felicidade instantânea e de terror profundo. E o problema não está nele propriamente dito, mas sim no despertar. Porque não sei lidar com o enorme sentimento de culpa que me assola todos os poros do corpo e porque, apesar de bastante vívido nunca passa de uma coisa sem matéria. É um preço demasiado elevado para uma satisfação que dura meras fracções de segundo mas que nem o peso da vergonha faz desvanecer. Dizem os crentes que isto são coisas de vidas passadas. A única coisa que eu tenho a certeza é que é uma merda tentar ser um ser humano funcional com isto a ocupar tanto espaço no meio do peito. É tentar ter uma vida ao mesmo tempo que se arrasta um corpo morto pelo pulso. Pergunto-me muitas vezes se não seria mais honesto viver sem tentar a todo o custo camuflar uma coisa que indiscutivelmente é muito maior que eu. Há dias em que é mais fácil carregar a cruz. Hoje não é um desses dias.

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