frames
Ontem consegui olhar directamente para ti por breves instantes. Só o universo sabe o que me custou. Abençoada cadeira que impediu que fosse ao chão naquele preciso momento. Pergunto-me muitas vezes se te consigo enganar tão bem quanto o esforço que faço para fingir que a expressão "adoro-te do fundo do meu coração" não passa de uma coisa dita da boca para fora, contextualizada numa das tantas conversas de circunstância. Porque em boa verdade, não é. Se em tempos eu era da opinião de que isto é uma dádiva do universo, agora começo a considerá-la uma espécie de cruz e ninguém merece carregar este fardo.
De vez em quando a memória é velhaca e relembra-me a fatídica manhã em que te afago o cabelo enquanto dormes e me despeço de ti no maior silêncio. Naquela altura quis guardar os frames todos, para que não me esquecesse de cada pormenor, de cada traço, no fim de contas, de ti. E por isso aqueles breves segundos estão gravados em mim em slow motion mas é por isso também, que me custa olhar para ti.
Olhar para ti é voltar a despedir-me vezes sem conta e só deus sabe o que doeu. Continuas igual. Continuas a conseguir arrancar o chão dos meus pés.